18/03/2017 às 00h00min - Atualizada em 18/03/2017 às 00h00min

São fatos isolados, minimiza governo sobre carnes estragadas e contaminadas

Friboi, Sadia, Perdigão e Seara são citadas em investigação sobre venda de produtos sem fiscalização

O Fato com JB

Representante do governo federal, o Secretário-Executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, disse, em entrevista coletiva nesta sexta-feira (17), que o escândalo com a venda de carnes estragadas e contaminadas pelos principais frigoríficos do país "não é um fato cotidiano, são fatos isolados" e que "a população tem que estar atenta para coisas anormais" nos produtos em prateleiras de supermercados.

Novacki recorreu ao número de servidores públicos envolvidos num universo de 11 mil funcionários no Ministério da Agricultura. "Desvios acontecem, não posso penalizar todo um sistema. Todas as instituições passam por problemas de conduta de seus servidores. Mas foram 33 servidores que agiram de forma incorreta num universo de 11 mil servidores do Ministério da Agricultura", ressaltou.

Questionado sobre os riscos à população, o representante do Ministério da Agricultura garantiu que "os riscos são muito pequenos". Segundo ele, são 21 estabelecimentos de quatro grupos econômicos sob suspeita de fraudes no escopo de mais de 4800 estabelecimentos em todo o Brasil. "De forma clara e contundente, eu afirmo que não representa a maioria", afirmou Eumar Novacki, acrescentando que uma força-tarefa fará um levantamento em território nacional sobre os estabelecimentos com problemas no prazo de aproximadamente 15 dias.

Representante do governo admitiu que situação do país no cenário internacional é preocupante

Representante do governo admitiu que situação do país no cenário internacional é preocupante

Representante do governo admitiu que situação do país no cenário internacional é preocupante

O representante do governo comentou, também, a imagem do setor no cenário internacional. Nesta sexta-feira (17), após a deflagração, pela Polícia Federal, da Operação Carne Fraca, as ações dos grupos JBS e BRF caíam entre 7% e 10% na Bovespa. Novacki admitiu que a situação é preocupante.

"Em relação aos Estados Unidos e à União Europeia (grandes compradores do Brasil), é lógico que nos preocupa. Somos grandes 'players' no mercado internacional. Com uma notícia dessa vindo a público, se aproveitam para colocar a questão em xeque e discutir preços. Mas temos deixado claro que nosso sistema é robusto e que estamos aprimorando a rechecagem e a fiscalização. Não se pode colocar em xeque o sistema inteiro pela conduta de uma minoria. Questões econômicas serão usadas contra nós, mas temos argumentos mais que contundentes para rebater as acusações", disse o representante do ministério.

Segundo o Secretário-Executivo da pasta, o governo entregou à Casa Civil um novo regulamento de inspeção de produtos de origem animal para estabelecer "de modo mais claro e rigoroso" os procedimentos e penalidades, bem como a instauração de procedimentos administrativos contra servidores envolvidos em casos similares.

A Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, que investiga a venda de produtos sem fiscalização por parte dos principais frigoríficos do país, detectou irregularidades como carne estragada, uso de produtos cancerígenos em doses altas, reembalagem de produtos vencidos, carne contaminada por bactérias e venda de carne imprópria para consumo humano. 

Operação detecta venda de carne estragada, maquiada com produtos cancerígenos e com salmonella

Operação da Polícia Federal deflagrada nesta sexta-feira (17) investiga a venda ilegal de carnes por frigoríficos. Os principais frigoríficos do país estão na mira da operação, como BRF, JBS e Seara. A Justiça Federal do Paraná determinou o bloqueio de R$ 1 bilhão das investigadas.

São cumpridos 26 mandados de prisão preventiva, 11 de temporária (válida por cinco dias) e 194 buscas e apreensões. Segundo a PF, essa é a maior operação já realizada na história da instituição. Foram mobilizados 1.100 policiais em seis Estados (Paraná, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Goiás) e no Distrito Federal.

O atual ministro da Justiça, Osmar Serraglio, também é citado na investigação. Ele aparece em grampo interceptado pela operação conversando com o suposto líder do esquema criminoso, chamando-o de "grande chefe". Contudo, a PF não encontrou indícios de ilegalidade na conduta do ministro, que não é investigado.

Segundo as investigações, a carne estragada era usada para produzir salsichas e linguiças. Ela era ainda "maquiada" com ácido ascórbico, substância cancerígena que disfarçava a qualidade do produto. 

Havia ainda a produção de derivados com uma quantidade de carne muito menor que a necessária - o que exigia a complementação com outros itens - além carnes sem rotulagem e sem refrigeração. Há também relato de pressão para liberação de um lote contaminado com Salmonella, da empresa Rio Verde.

No frigorífico Peccin, foi detectado o “armazenamento em temperaturas absolutamente inadequadas, aproveitamento de partes do corpo de animais proibidas pela legislação, utilização de produtos químicos cancerígenos, produção de derivados com o uso de carnes contaminadas por bactérias e, até, putrefatas”.

Gravações

Em uma das conversas interceptadas, um dos donos da Peccin e a mulher discutem o uso de carne de cabeça de porto em linguiças, o que é proibido pela legislação.

Em outra gravação, os sócios do frigorífico discutem como reaproveitar um presunto que, embora podre, "não tem cheiro de azedo", e por isso poderia ainda ser vendido. Em outra, combinam adicionar ácido sórbico a amostras de carne enviadas para análise de qualidade para que elas não sejam reprovadas pela fiscalização.

Veja as transcrições.

Conversa entre os irmãos Normélio Peccin Filho e Idair Piccin, sócios do frigorífico Peccin:

Normelio - Tu viu aquele presunto que subiu ali ou não chegou a ver?

Idair - Ah, eu não vi; Cheguei lá, mas o Ney falou que tá mais ou menos. Não tá tão ruim.

Normelio - Não, não tá. Fizemos um processo, até agora eu não entendo, cara, o que é que deu naquilo ali. Pra usar ele, pode usar sossegado, não tem cheiro de azedo, nada, nada, nada.

Conversa entre Idair Piccin e a mulher, Nair Piccin, sua mulher:

Idair - Você ligou?

Nair - Eu, sim eu liguei. Sabe aquele de cima lá, de Xanxerê?

Idair - É.

Nair - Ele quer te mandar 2000 quilos de carne de cabeça. Conhece carne de cabeça?

Idair - É de cabeça de porco, sei o que que é. E daí?

Nair - Ele vendia a 5, mas daí ele deixa a 4,80 para você conhecer, para fechar carga

Idair - Tá bom, mas vamos usar no que?

Nair - Não sei

Idair - Aí que vem a pergunta né? Vamo usar na calabresa, mas aí, é massa fina é? A calabresa já está saturada de massa fina. É pura massa fina

Nair - Tá

Idair - Vamos botar no que?

Nair - Não vamos pegar então?

Idair - Ah, manda vir 2000 quilos e botamos na linguiça ali, frescal, moída fina

Nair - Na linguiça?

Idair - Mas é proibido usar carne de cabeça na linguiça

Nair - Tá, seria só 2000 quilos para fechar a carga. Depois da outra vez dá para pegar um pouco de toucinho, mas por enquanto ainda tem toucinho (ininteligível)

Conversa entre Idair Piccin e Normélio Peccin Filho.

Idair - Oi.

Peccin Filho - Fala.

Idair - E daí?

Peccin Filho - Aquela vaca [modo pejorativo ao qual se referem a uma fiscal que não fazia parte do esquema, segundo a PF] hoje de novo amostra de novo cara, análise.

Idair - De novo?

Peccin Filho - De novo cara, que vaca do c.. Estava até agora separando tempero, presunto, salsicha e linguiça de frango.

Idair - Mas todos os meses assim?

Peccin Filho - Mas não faz 15 dias que mandou cara. Mandou dia 28, dia 29 do mês passado, 15 dias nem... e agora vai mandar a salsicha de novo lá para Porto Alegre, na LANAGRO, lá em Porto Alegre, de novo. Que vaca cara, e daí pegou a salsicha levou lá no SIF [Serviço de Inspeção Federal], lacrou e botou lá dentro da geladeira do SIF, dentro do freezer. Óia, vou falar para você. Que larga de uma mulher. Será que a linguiça de frango, eu vou fazer uma massada cara, vou fazer, vou tirar a pele, vou deixar só com recorte, vou diminuir a água, e, diminuo a água, diminuo a cura, e ali se ela tiver de, dá para por ácido sórbico nela?

Idair - Lactato.

Peccin Filho - Lactato?

Idair - É.

Peccin Filho - Eu vou ver se eu tenho aí. Botar o que?

Idair - 2%.

Peccin Filho - 2%? Massada 500 litros. 5 KG.

Idair - 10 Litros.

Peccin Filho - Ah, é dois, pois é, não, dois. Botar uns 8, 10 litros.

Idair - Se é 500 kg, 10 litros, bota 10.

Peccin Filho - É 500 kg.

Idair- Bota 10 litros.

Peccin Filho - Será que não é demais? botar uns 8 kg.

Idair - Não, é recomendado, os caras recomenda, se é para por menos que 2%, não faz

efeito. É o mínimo 2%.


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