28/12/2017 às 02h17min - Atualizada em 28/12/2017 às 02h17min

O Candomblé

João Pedro (Alaurê)
O Fato Jornalista Raudrin de Lima

Contexto histórico da Religião:

Existem 3 tipos de movimentos de resistência negra: o banzo, os quilombos e as religiões de matriz africana. As religiões de matriz africana foram trazidas pela diáspora africana, afim de escravizar o negro. E com eles, traziam suas culturas e costumes. Para continuarem com a prática religiosa, tiveram de homogeneizar a religião e adaptar aos meios em que se vivia, como se faz até hoje, nos dias atuais.

 

Candomblé e o preconceito

No candomblé não existe nenhum livro sagrado, como a Bíblia na religião Cristã, por exemplo. Podemos dizer que o candomblé é uma religião pragmática, ou seja, uma religião que se aprende na prática, com a vivência, assim como a Umbanda (religião afro-brasileira). Por este motivo, a religião acaba reservando mistérios que são apresentados apenas para adeptos e que muitas vezes, são remanejados por pessoas de outras religiões, principalmente os fanáticos, que acaba tornando o candomblé vítima de intolerância.

Podemos falar que o candomblé é reprimido por três motivos:

*Magia
*Transe (incorporação)
*Religião majoritariamente de preto e pobre, e onde se tem muitas pessoas da comunidade LGBTQ.

Num país racista, opressor de classes e com diversos outros preconceitos que são estruturais, isso basta. Hoje, candomblecistas sofrem bem menos, pois a religião está se abrangendo e muitos brancos e pessoas de classe média/rica começaram a fazer parte. Apesar de hoje, sofrerem bem menos preconceito, ainda há bastante, pois o candomblé é historicamente reprimido pelos motivos acima. Como disse, muitos adeptos ainda são atacados. E isso, por acharem que suas religiões são melhores que o candomblé. Costumo dizer que não existe melhor religião. A melhor religião é aquela que você se sente melhor, que te faz uma pessoa melhor. Portanto, devemos respeitar a religião dos outros, como se fosse a nossa, e sermos mais tolerantes.

 

O candomblé na visão de um Yaô

Me chamo Alaurê. Sou filho do Babalorixá Manoel de Xoroque, do Ilê Axé Legionirê Nitô Xoroque.

Primeiramente, é preciso entender que o candomblé é uma religião hierárquica. Nessa hierarquia existem denominações pras pessoas de acordo com o cargo que é estabelecido. O abiã traz ideia de início, e ele realmente é o começo. É a pessoa que ainda vai ser iniciada, é o pré-iniciado, o primeiro momento do futuro yaô. Yaô é o iniciado, é como se fosse um bebê. É o recomeço de toda casa de candomblé, aquele que se comprometeu em aprender e seguir as normas de conduta e orientações da religião dos orixás. Na sequência vem os Ebômis (iniciados que tem 7 anos completos ou mais), Equedes (autoridades femininas abaixo do babalorixá/iyalorixá, auxiliares direto dos mesmos, cujas não entram em transe), Ogans (autoridades masculinas abaixo do babalorixá/iyalorixá, auxiliares direto dos mesmos, cujos não entram em transe) e por fim o Babalorixá/Iyalorixá (figura central da casa de candomblé, que por nome já diz “pai/mãe que cuida do orixá”, sendo chefes de um Axé).

Já que entendemos a hierarquia, e o respectivo posicionamento de um yaô, podemos começar.

Pouco sei sobre o candomblé, na verdade. Eu acho o candomblé uma religião tão vasta, cheia de cultura, porque resgata a nossa ancestralidade, e a partir disso entramos em contato com nossos ancestrais, com as forças da natureza, as quais nos dão suporte físico e espiritual, os orixás (o senhor das nossas cabeças). Confesso que pra mim é um pouco difícil falar de orixá, porque não sei definir com a precisão que sinto dentro do terreiro. Pra mim, a definição correta de orixá, está no orixá. Eu chego no terreiro e não quero sair, por causa do conforto, da energia que os orixás me proporcionam. Não existe nada mais bonito do que a energia do xirê (festa), nada mais encantador do que a força dos orixás. Pra mim, não existe nada mais gratificante do que trabalhar pros orixás, servir a quem nos serve a todo momento, aqueles que nos dão forças sempre, aqueles que são nossos refúgios. De vez em quando me pego pensando o motivo pelo qual faço parte da religião, e em meio ao pensamento, uma cachoeira de respostas se despeja em mim. Você já sentiu o quão gostoso é dançar e cantar bem alto pros orixás? Você já sentiu o quão prazeroso é bater palma e ver o orixá dançando com a maior leveza e serenidade, e ainda mesmo assim com a maior força que você já viu? Parece inusitado mas é verdade. E é por estes motivos que estou no candomblé. Por me sentir vivo, consumido, amado. E talvez seja por esses mistos de sensações que no candomblé não existe teoria, creio eu. Sei que minha jornada ainda é longa no Ayê (terra) e farei jus a escolha do sagrado. Sei que minha caminhada é longa dentro do candomblé, que tenho muito a aprender, e que não sei nada. Mas como iaô, estou disposto a aprender, para ser um bom ebômi. Peço benção ao meu orixá, ao meu babalorixá e aos meus irmãos. Muito axé para todos e que o mundo a cada dia que passa, seja mais justo, tolerante e entenda a beleza do candomblé.

 

 

 

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