15/04/2023 às 13h06min - Atualizada em 15/04/2023 às 13h06min

O FENÔMENO KAREN NO BBB

Uma atitude nomeadamente racista que precisamos estar atentos

Reprodução da internet

Lorna F., 19, é uma menina loira, olhos azuis, estudante de uma High School no Kansas. Um dia ela entra chorando numa loja alegando que M. S., 18, seu colega de escola a havia agredido. Resultado: uma multidão fez “justiça” com as próprias mãos. Passados 40 anos, no leito de morte, uma amiga de Lorna, confessa que sua amiga havia mentido e o jovem M.S. era inocente. (nomes fictícios)

 

Senhor, estou pedindo para o senhor parar de me filmar. Desligue o celular! Se o senhor não parar, vou chamar a polícia e dizer que o senhor está ameaçando a minha vida.

Ela cometendo um ato infracional e ele registrando. Mas com a certeza de seu privilégio Amy Cooper liga para a polícia e cumpre a ameaça de falso testemunho. Ela não contava que o vídeo viralizaria com a verdade e sua mentira se tornaria um meme viral com ela ficando conhecida como a Karen do Central Park.

 

Em São Conrado, no Rio, viralizou a imagem de uma mulher que chicoteava um homem negro com a guia de um cachorro. Ela gritava e batia no homem e este apenas se defendia. Ela sabia do seu lugar de privilégios e de impunibilidade. E com isso, a loira agiu abertamente sem ninguém a impedir.

 

As pequenas e tristes histórias que ilustram esse texto parecem daqueles enredos saídos de filmes feitos para emocionar o público e fazer chorar ou, no segundo caso, uma esquete bufa de um satiricon televisivo. Parece. Apenas parece, mas não é ficção. Essas são algumas das muitas histórias que aconteceram nos EUA e que acontecem ainda hoje, todas com características tão parecidas e reiteradas ao longo do tempo que passaram ser consideradas um fenômeno social conhecido como KAREN.

 

O que é o Fenômeno KAREN e quem são as Karens?

 

O Fenômeno Karen é caracterizado por geralmente uma mulher branca usar de seus privilégios para desrespeitar, chamar a polícia, chamar o gerente para acusar uma pessoa diferente de sua etnia, imputando-a de um delito qualquer, um estupro, um roubo, uma ameaça, para que esta pessoa receba uma punição. No desenvolver da ação das Karens, quase sempre a vítima real delas saem punidas, ou mortas, quando não linchadas por uma turba, presos e enfrentando acusações judiciais.

 

Com o advento das tecnologias de câmera e exames de DNA, passou-se a a existir um nome sobre essas ações difamatórias e uma pauta de oposição crítica foi levantada. Com isso, alguns casos do passado foram resolvidos e outros vários na atualidade foram desmascarados. As Karens é algo tão reconhecidamente sério que já foram tema até de várias cenas de filmes e seriados satirizando as mesmas. Viraram meme e estes ajudaram a colocar luz sobre algo que até então não tinha nome.

 

Quem lembra do caso Neymar num hotel de Paris onde ele fora acusado de estuprar uma mulher loira!? Esse caso ilustra bem é nos dá uma visão aproximada ao nosso cotidiano do que é uma KAREN. A mulher loira, viaja pra Paris, arma uma cilada para o homem negro - pena Neymar não se considerar uma homem negro - e o acusa de tê-la agredido e estuprado. Neymar enfrentou um linchamento público e uma quase morte social. O que salvou foi a tecnologia.

Outro exemplo próximo a nós de uma KAREN é a deputada Bolsonarista Júlia Zanatta, apesar de o ato mentiroso ser contra uma pessoa branca e com poder, ela se vale de sua condição feminina para levantar um falso testemunho. Ela alegou que um colega seu a havia assediado com um cheiro em sua nuca. Obviamente o apoio a ela foi geral, independente de esquerda ou direita. Mas felizmente alguns vídeos apareceram e desmentiram a KAREN brasileira. Não sem antes ela causar um bom estrago na imagem do deputado, um linchamento cibernético, por que não dizer, uma morte em rede.

 

Outro caso que em curso é bastante paradigmático que viralizou nos últimos dias no Brasil é o protagonizado por Patrícia Poeta do Programa Encontro. Todas as características se encontram aqui: mulher branca, rica, aprimindo e calando um homem negro, é criticada, mas reitera com ironias em outro dia, novamente criticada, aparece estrategicamente chorando em uma praia na perigosa noite carioca, toda maquiada, montada e em roupas esvoaçantes. Uma cena de filme trágico-romântico precedendo uma enxurrada de ataques o profissionalismo do impecável Manoel Soares por sites e páginas de fofocas nas redes sociais. Cabe aqui um vaticínio: ele será demitido ou no mínimo prejudicado.

 

O FENOMENO KAREN NO BBB?

Na esteira desse conceito algumas cenas do Reality BBB, da Rede Globo, tem chamado a atenção. Um grupo de mulheres brancas (uma negra entre elas infelizmente) reiteradamente vão em bando fazendo ações e falas na tentativa de desestabilizar um oponente seu. Homem e negro. Estratégia de jogo, reality, tudo normal. Só que um fato chama a atenção e precisa de leitura atenta e consciente. Elas fazem suas indagações, levantam suas questões, gritam, xingam o oponente e quando percebem que este continua no debate, não se desestabiliza, passam a agredi-lo com palavras e atitudes grosseiras. Não satisfeitas, tentam calar ele chamando-o de machista, fazendo uso errado do termo e esvaziando-o do seu real sentido e contexto. Elas subvertem a fala dele e choram chamando-o de machista e grosso. Noutra das ocasiões, uma delas tenta até por na boca palavras não ditas e nas ações, atos não pretendidos. Tentam arrancar dele atos de agressão. Não conseguem e choram. Caso esse homem estivesse numa via pública, seria o bastante para ser linchado. Mas como ele está num confinamento de um reality, sua morte será, felizmente, uma morte social e exclusão do programa.

O desestabilizar psicologicamente o oponente no “game” até pode ser considerado uma estratégia. Mas até que ponto essas estratégias podem ultrapassar os limites da ética? Até que ponto pode-se retirar do outro uma ação violenta? Qual o limite para deduzir uma agressão? No desenvolver das ações delas, calmamente o rapaz pede respeito e outra continua tentando conseguir uma ação por parte deste, mas não consegue. 

 

Black: Me respeita!

Aline: Ou o quê Black?!

Insinuando e tentando cavar uma ação agressiva

Black: (silêncio)

 

As Karens, esse fenômeno, é algo que precisa ser posto em relevo porque ele é prejudicial para todas as instâncias da sociedade e inclusive tem o poder de desacreditar casos reais de agressão ou estupro e que lutamos tanto para dar visibilidade e credibilidade. A luta legítima de um feminismo consciente é válida e inquestionável. A nossa sociedade precisa respeitar as mulheres. Mas tudo que as mulheres não precisam é ter que lutar contra mais esse dissenso que é o fenômeno Karen. 

 

Apesar de toda complexidade de reflexões e controvérsias referente às questões feministas, o qual é felizmente plural e diverso, não é objetivo deste texto questionar o feminismo. Contudo, trazer luz sobre algo que não é bom para nenhuma instância de nossa sociedade e muito danoso para a causa das mulheres se faz necessário. Atitudes que faltam com a verdade, quando não mata um, descredibiliza outros e todos saem perdendo.

Miguel Conceição 

Para saber mais sobre as Karens:

https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-53640392.amp

https://g1.globo.com/google/amp/mundo/noticia/2020/08/04/o-que-e-uma-karen-novo-personagem-no-debate-racial-dos-estados-unidos.ghtml

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/10/a-epidemia-de-karens-nos-eua--e-o-que-isso-diz-sobre-racismo-no-pais.amp.htm

https://glamurama.uol.com.br/notas/conheca-karen-a-personagem-que-promete-bombar-no-proximo-halloween-dos-eua/

https://www.metropoles.com/entretenimento/bbb/entenda-o-significado-de-karen-termo-viralizado-apos-griphao-se-exaltar-com-black?amp
 

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