28/11/2015 às 01h13min - Atualizada em 28/11/2015 às 01h13min

Nilton Santos, o artista da bola que reinventou a função do lateral no futebol

O Fato e O Globo

Nivaldo Esperança

“Quanta majestade no trato de uma bola! O moço jamais fez um truque com a bola. Só fazia arte. Nilton não era um jogador de futebol, era uma exclamação. Tu em campo parecias tantos/ E, no entanto – que encanto – eras um só: Nilton Santos”. (Armando Nogueira).

Desde cedo o futebol foi a principal diversão do carioca Nilton Santos, tanto que, juntamente com os amigos de infância, na Ilha do Governador, fundou o Fumo, que tinha camisa vermelha e preta, já que a maioria dos jogadores torcia pelo Flamengo. O sonho dos meninos do Fumo – não há explicação para o nome escolhido – era jogar no Flexeiras Atlético Clube, onde usariam camisa oficial, jogariam de chuteiras, atuariam no juvenil e, depois, na equipe principal. Nilton Santos não só conseguiu esse intento como brilhou no Botafogo e na Seleção Brasileira e, em 2000, foi eleito pela Fifa um dos melhores jogadores de todos os tempos.

Nascido no dia 16 de maio de 1925, na Estrada de Flexeiras 12, Nilton foi o primeiro dos sete filhos do pescador Pedro e da dona de casa Josélia. A casa era humilde, como eram todas as outras do bairro Flexeiras, onde mais tarde foi construído o Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro. Aos 14 anos, Nilton já era titular da ponta esquerda. Único menino a jogar no time de adultos, sua fama já corria toda a Ilha. Nos dias de jogos os campos enchiam, todos queriam ver “aquele jogador do Flexeiras”, que começara no futebol jogando descalço e usando bola de meia, como era comum na época.

Em 1945, já cumprindo serviço militar na Aeronáutica, seu talento o levaria a ser o único soldado no time dos oficiais e sargentos. Sua habilidade com a bola nos pés não só lhe proporcionou privilégios no quartel, como também fez com que ele fosse apadrinhado pelo então major Honório Magalhães, responsável por sua ida para o Botafogo.

Nilton Santos queria ser centroavante, artilheiro, driblador; ter liberdade em campo. Porém, parecia haver um complô do destino contra Nilton Santos (e a favor do futebol), pois já em seu primeiro treino no Botafogo, em 1948, foi escalado por Zezé Moreira para jogar na defesa. O bom desempenho e uma conversa com Carlito Rocha, lendário presidente do Botafogo, no segundo dia de treino, sepultaram o atacante e fizeram nascer um dos maiores jogadores de defesa de todos tempos. Carlito afirmou: “Esqueça o ataque rapaz. Na defesa você será campeão carioca, brasileiro, sul-americano e mundial”. E acertou em cheio. Naquele ano mesmo, o Botafogo sagrou-se campeão, após quatro anos vice, como noticiou O GLOBO em 13 de dezembro.

Assim, nascia uma nova maneira de jogar: diferentemente daquele lateral antigo, que priorizava a defesa, Nilton Santos avançava, atacava. Mas seu estilo de jogo moderno não foi inicialmente bem aceito. O próprio jogador achava que só não foi titular na Copa de 1950 porque Flávio Costa, então treinador da equipe brasileira, preferia o estilo antigo. Mesmo na Copa de 58, os avanços do craque ainda provocavam gritos desesperados do treinador Vicente Feola.

Por sua elegância, habilidade e conhecimento do jogo dentro e fora do campo, recebeu a alcunha de “Enciclopédia do Futebol”. Também há muitas histórias divertidas sobre o craque, que praticamente forçou o Botafogo a contratar Garrincha, em seu primeiro treino no time reserva, em 1953. Ao fim da partida, ele teria dito ao técnico Gentil Cardoso:

— Gentil, contrata esse garoto logo porque nunca mais quero jogar contra ele!

Em toda a carreira, jogou apenas no Botafogo e, além da camisa do Glorioso, a única que usou foi a da Seleção Brasileira. No Botafogo, disputou 729 partidas, marcando 11 gols. Na seleção, fez 84 jogos marcando três gols. Foi o precursor dos laterais modernos, tendo marcado um gol, o segundo, na partida Brasil 3 x 0 Áustria, na Copa de 1958, conforme noticiou O GLOBO, na edição de 9 de junho de 1958.

Uma jogada inesquecível aconteceu na partida Brasil 2 x 1 Espanha, na Copa de 1962, no Chile. Nilton Santos derrubou o atacante Enrique Collar dentro da área quando o Brasil perdia por 1 a 0 e, de maneira discreta, deu um passo para fora e ficou na grande área. Enganado, o árbitro não percebeu a manobra e, em vez do pênalti, marcou apenas falta. O jogador foi bicampeão mundial pela Seleção Brasileira, em 1958 e 1962, e esteve nas Copas de 1950 e 1954. No Botafogo, foi campeão carioca quatro vezes (1948, 1957, 1961 e 1962), conquistou dois Torneios Rio-São Paulo (1962 e 1964), além de títulos nacionais e internacionais.

Em 1998, o craque lançou uma autobiografia, “Minha bola, minha vida”, em que reuniu fatos marcantes e engraçados de sua carreira, relançada em 2014. Nilton teve ainda seu nome foi incluído entre os melhores craques de todos os tempos, ao lado do amigo Garrincha e de outros brasileiros, numa fictícia Seleção Mundial, resultado de pesquisa realizada pela Fifa em 2000.

Em 27 de setembro de 2009, o Botafogo, gestor do estádio do Engenhão, no Rio, inaugurou uma estátua do jogador em uma festa que reuniu vários botafoguenses célebres e Maria Célia, mulher de Nilton que, já doente, não compareceu. Desde fevereiro de 2007, ele vivia na Clínica da Gávea, na Zona Sul carioca, pois era cardiopata e sofria de Mal de Parkinson, como foi revelado pelo diretor da instituição, Paulo Valença, logo depois que o craque faleceu. Nilton Santos morreu em 27 de novembro de 2013, aos 88 anos, na Fundação Bela Lopes, em Botafogo, onde estava internado tratando de uma infecção pulmonar. Em 10 de fevereiro de 2015, a pedido do Botafogo, o Diário Oficial do Município publicou um despacho alterando o nome fantasia do estádio para Nilton Santos. Em 26 de novembro, foi lançado o documentário “Ídolo”, de Ricardo Calvet, aplaudido pelo Bonequinho do GLOBO.

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