23/09/2019 às 23h28min - Atualizada em 23/09/2019 às 23h28min

Entrevista com Rogers Ayres sobre o Folclore Alagoano

Jornalista Raudrin de Lima
O Fato
Rogers Ayres
Entrevistado: PROFESSOR ROGERS AYRES do Departamento de Artes da UFAL – Universidade Federal de Alagoas, aonde ministra aulas de Dança e Folclore para os Cursos de Teatro e Dança, além do Curso de Educação Física. Fundador e Diretor Geral do Balé Folclórico de Alagoas – BFAL, mais conhecido como GRUPO TRANSART, nascido na Pajuçara, em 1976 e com uma história de apresentações folclóricas ao longo desses 43 anos, pelos principais Festivais Nacionais e Internacionais de Folclore representando Alagoas e o Brasil. Mestre em Artes Cênicas pela UFBA – Universidade Federal da Bahia,e membro (além de organizador) de destacadas Comissões Julgadoras de Concursos de Quadrilhas Juninas, em Maceió, Recife (Rede Globo Nordeste) e João Pessoa (Liga das Quadrilhas do Nordeste). Recentemente aprovado no Concurso que escolheu os 10 melhores estudiosos de Folclore que irão compor a Banca de Julgadores do Grande Festival de Parintins, no Amazonas, no ano de 2020. 
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 Raudrin: Professor Rogers Ayres qual foi o momento que mais lhe emocionou na História do Transart? 
R- Quando representamos o Brasil nos grandes Festivais Internacionais de Folclore na Itália, na França, na Bélgica e na Holanda nos anos de 1996/1997, 2005, e 2010. 
01 - Raudrin: Qual sua relação com o Professor Pedro Teixeira, é o que ele representa pra você? 
R- Professor Pedro foi um grande mestre que me apoiou na década de 70, me ensinou o Côco de Roda, e me prestigiou em vários eventos, aonde fazia questão de me apresentar ao grande público como um “artista criativo excepcional, que, tinha certeza, que iria dar novas roupagens aos Folguedos Alagoanos, para conseguirem sobreviver à onda da lavagem cerebral da mídia Global, que começava a se espalhar e influenciar as gerações daquela época!” Foi a partir dessa referencia que a minha responsabilidade se multiplicou e resolvi que levaria essa bandeira até o fim da minha vida! 
02 - Raudrin: Quais os Projetos que hoje o Transart desenvolve? 
R- Hoje continuamos a montar elencos para atender aos pedidos de apresentações dos organizadores de eventos, chefes de cerimoniais governamentais e particulares, Prefeitos de Interior, promoters, etc. sempre abrindo Congressos em Teatros e Centro de Convenções, Festas de Padroeira, Inaugurações, etc. como parte das solenidades, com muito destaque e reverência. 
 

 
03 - Raudrin: Como anda o interesse dessa nova geração em relação ao Folclore? 
R- Essa é o grande problema de hoje em dia. Há um total desinteresse da juventude pelas nossas tradições. Com o advento das Redes Sociais, do mundo tecnológico e globalizado e de todas as apelações sociais e culturais da contemporaneidade, temos muita dificuldade de formar novos elencos que tenham “pertencimento” com nossa identidade cultural, pois são jovens totalmente alienados, indiferentes e leigos com relação à história das nossas tradições dançantes que estão em acelerado processo de extinção.  
04 - Raudrin: Quem foi a pessoa mais importante para o Transart no que ele hoje representa ao povo alagoano? 
R- Não existiria UMA SÓ PESSOA dentro desse Universo de Apoio e Motivação, ao longo desses 43 anos, mas alguns nomes se destacaram muito porque nos acompanharam de perto, se envolveram com o Grupo e partiram deixando um legado de trabalho e conhecimento que não tem preço que pague. Dentre eles poderíamos citar o Prof. Pedro Teixeira, a grande Madrinha poetisa e escritora Anilda Leão, o nosso saudoso crítico de Arte Romeu Loureiro, a nossa criativa e brilhante estilista Vera Arruda, nossos queridos padrinhos Prof. Edmilson Pontes e Dr. Ismar Gatto, Nossos Mestres Laudilino (Capela), Benon (Bebedouro),  Mestre Zomi e Mestra Luzia (Quebrangulo) e Izaudino (Pontal da Barra) aonde fui beber na fonte e ter a devida assessoria que autenticou e chancelou tudo que passei a estudar, amar, criar e difundir ao longo dos anos. 
05 - Raudrin: Qual sua visão como o grande nome hoje do folclore alagoano em relação as novas quadrilhas de São João? 
R- Esse é um fenômeno que acontece no mundo inteiro. O Folclore é dinâmico e vivo como toda manifestação artística. Não há como congelar e cristalizar uma manifestação popular folclórica em nome da tradição. Tudo recebe influência do progresso e do desenvolvimento tecnológico e cientifico em todo o planeta. Com a propagação das mídias, das redes de televisão e da força da internet, se compartilham muitos conhecimentos, modas, tendências, estilos, regulamentos, e toda sorte de novidades que enfeitiçam as cabeças dos ensaiadores e organizadores de eventos na modernidade, como acontece nas Escolas de Samba, nos Concursos de Bois, de Quadrilhas, de Cocos, etc. O que temos que monitorar sempre é o limite das explorações dos temas, e da utilização tecnológica nesses acontecimentos, para não virarmos uma Hollywood e perdemos totalmente às conexões com os fundamentos básicos que diferenciam um Pastoril de um “Quebra Nozes”, um Mestre de Guerreiro de um Destaque de um Carro Alegórico, ou de uma Quadrilha Junina de uma Escola de Samba. Graças a Deus, apesar da evolução das Quadrilhas estilizadas, em algumas regiões rurais ainda podemos encontrar Quadrilhas Tradicionais, dançando espontaneamente, nas festas juninas, com fogueiras, comidas típicas, forró e arraias.  
06 - Raudrin: Em relação  ao Festival do Boi alagoano qual sua avaliação? 
R- Toda observação que fiz no item anterior se aplica nesta questão, lembrando que esta “modernização” dos folguedos e dos eventos, provocam distorções que irão influenciar toda história do nosso Folclore no futuro, como, por exemplo, no caso dos BOIS, que, depois dos Concursos acirrados, ficaram muito estilizados, saíram das 

 
ruas, e não são mais do Ciclo Carnavalesco, como antigamente, pois cada responsável organizador cultural de cada governo desloca os Concursos para datas mais convenientes para sua gestão, e seus interesses. Daí já tivemos esses Concursos apresentados em datas diferentes e inusitadas. Agora eles não se declaram mais “Bois de Carnaval” e se intitulam “Bois Bumbás” e estão se apresentando no mês de agosto, que é o Mês do Folclore. 
07 - Raudrin: Quais os folclores que são tipicamente alagoano e qual suas origens? 
R- Nós temos uma infinidade de folguedos folclóricos em Alagoas, divididos em FOLGUEDOS (danças dramáticas, com histórias e personagens) e DANÇAS (estrutura livre, sem necessidade de rituais, personagens definidos, etc.), Muitos já foram catalogados pelos Professores Pedro Teixeira, Prof. José Maria Tenório e o grande historiador Prof. Théo Brandão. Grande parte já desapareceu ou estão em franco processo de extinção. Mas os mais representativos ainda continuam sendo o GUERREIRO, REISADO, PASTORIL, FANDANGO, CHEGANÇA, BAIANAL e TAIEIRAS (Ciclo Natalino) e o COCO DE RODA (Ciclo Junino). São todos muito alagoanos e tradicionais. O nosso MARACATÚ alagoano depois que passou por um processo de “quase extinção”, após o falecimento do Mestre Biu e Mestra Maria José Carrascosa, ressurgiu com um movimento de resgate pelos resistentes que influenciaram e atraíram jovens da Classe Média, e, aos moldes pernambucanos começaram a reaparecerem nas festas com um perfil diferente da década de 60 e 70  
08 - Raudrin: Qual a importância de Téo Brandão para Cultura Alagoana? 
R- Um grande médico apaixonado pelas tradições populares que juntou muito material que coletou durante toda sua vida, para compor um acervo antropológico de valor imensurável, numa época difícil, mas com jogos, rituais, danças, crendices, torneios, festas, artesanatos, e hábitos culturais em processo de extinção, que teve tudo documentado e registrado para a posteridade, com muita competência e clareza de quem vivenciou tudo isso de perto. Théo Brandão pela importância literária que deu a tudo que registrou na sua época, tornou-se no nosso Aurélio Buarque de Holanda das Manifestações Populares e Folclóricas, de um época que não volta mais. 
09 - Raudrin: Qual o maior sonho do Folclorista Rogers Ayres em relação ao folclore alagoano? 
R- Passei a vida toda batalhando e lutando em ter um ESPAÇO próprio para desenvolver todas essas atividades que envolvem o GRUPO TRANSART: aulas e ensaios com estudantes da Rede de Ensino da cidade, oficinas de fantasias e instrumentos musicais, montagens de coreografias, construção de adereços, etc. Organização de um Museu com todo nosso acervo. Além de apresentações públicas para nossos visitantes, pesquisadores, estudantes, artistas e turistas. Na Bahia o Balé Folclórico conseguiu isso com o Governo Estadual de Lá, e no Recife, o Balé Popular conseguiu realizar esse sonho com o apoio da Prefeitura de lá. Nós que temos uma Companhia Folclórica mais antiga, não conseguimos ter essa valorização dos responsáveis pela cultura da nossa terra, não obstante tantos casarios fechados e abandonados no Bairro de Jaraguá, por exemplo! Para nossa obra se perpetuar, eu precisaria de um local físico para todo o processo se concretizar para futuras gerações. 
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