29/07/2017 às 01h06min - Atualizada em 29/07/2017 às 01h06min

Temer impopular: “Presidente tem maioria nas Casas e eles não se preocupam em agradar sociedade”

Deputados, cientistas políticos e economistas repercutem pesquisa Ibope

O Fato com JB

A mais recente pesquisa Ibope/CNI revelou que a popularidade do presidente Michel Temer é a mais baixa da série histórica, iniciada em 1986. De acordo com o levantamento, nem a ex-presidente Dilma Rousseff, que atingiu 9% de popularidade em junho e dezembro de 2015, nem o governo de José Sarney, com aprovação de 7% em junho e julho de 1989, chegaram a níveis tão baixos.

Mesmo assim, para deputados federais, cientistas políticos e economistas consultados pelo JB, enquanto o peemedebista tiver o Congresso "nas mãos", a impopularidade junto à sociedade não será determinante para a sobrevida de seu governo.

A pesquisa Ibope divulgada nesta quinta-feira (27) mostra que o percentual de brasileiros que consideram o governo de Michel Temer ruim ou péssimo é de 70%. Para 21%, a administração é regular e apenas 5% consideram ótimo ou bom; 3% não responderam.

Popularidade de Temer é a menor desde a redemocratização do país

Popularidade de Temer é a menor desde a redemocratização do país

Popularidade de Temer é a menor desde a redemocratização do país

Veja abaixo as opiniões dos entrevistados pelo 'JB':

Chico Alencar - Deputado federal pelo Psol do Rio de Janeiro

"Se o parlamento tiver algum senso de sobrevivência ao se deparar com a pesquisa sobre a impopularidade de Temer, é claro que ela vai causar impacto. No entanto, não se aceitou um mero pedido de investigação contra ele.

Quando houver a votação da primeira das denúncias a gente já vai aferir o peso real das ações do governo no parlamento. Essa pesquisa demonstra que há uma enorme rejeição da sociedade contra essas medidas de emendas aos parlamentares para conseguir apoio no Congresso. A sociedade percebe que isso é um tipo de corrupção, mesmo que seja uma corrupção branca."

Eduardo Fagnani - Professor do departamento de Economia da Unicamp

"Na época da ditadura, o general Emilio Garrastazú Medici dizia 'a economia vai bem, mas o povo vai mal'. Hoje, a elite econômica diz que a política vai mal, mas a economia vai bem. É um escárnio o que ocorre. Temos um governo ilegítimo, sem autoridade ética, que se arrouba ao direito de fazer alterações profundas no país.

A bolsa de valores subir não quer dizer nada. Não estou preocupado com a bolsa. Estou preocupado com o futuro do país. Na bolsa quem ganha é o especulador. A reforma trabalhista vai rebaixar o trabalho, aumentar a rotatividade, a da Previdência é a mesma coisa. A Previdência é um dos principais mecanismos de transferência de renda para os mais pobres. Com essas mudanças, voltamos a ser uma economia primário-exportadora.

Enquanto isso, os movimentos sindicais e sociais estão muito enfraquecidos. Nós acabamos com a era Vargas, Ulysses e Lula em um único dia com a reforma trabalhista e não tinha um trabalhador da rua. Os movimentos sociais vivem em caixinhas com suas demandas próprias e não se mobilizam. Realmente é um quadro muito triste."

Felipe Borba - Professor do departamento de Ciência Política da Unirio

"Acredito que a impopularidade do Temer terá um impacto mínimo na sua relação com os parlamentares. Por um motivo muito simples: Temer foi colocado no poder por esses mesmos políticos, com o propósito de implementar a agenda impopular que ele vem implementando, de reforma da Previdência, trabalhista. Desde que ele siga avançando com essas reformas, acredito que ele terá apoio não só dos parlamentares como do mercado e do mundo empresarial.

Também não acredito que a classe política, de maneira geral, vá se manifestar contra o presidente. Pode haver sim uma reação da sociedade organizada, sindicatos, movimentos sociais e dos partidos de oposição que já fazem esse papel. Mas não acredito que essa reação irá além desse grupo. Boa parte do apoio político que o Temer possui vem dessa sua agenda impopular. Não acredito que a pesquisa vá causar uma piora das suas relações.

Sem dúvida que a impopularidade do Temer está relacionada a essas medidas, por um motivo muito simples: Elas não foram discutidas em sociedade. Em 2014, quando a Dilma foi eleita, ela representava uma agenda contrária a essas medidas impopulares. Quando Temer contraria essa agenda que saiu vencedora da eleição é claro que causa algum tipo de impacto. Temer não tem a legitimidade do voto para fazer isso, não teve autorização das urnas para fazer essa mudança política do que vinha sendo feito pelos governos PT.

O que pode mudar é que a impopularidade do Temer pode tornar o custo de transação e barganhas um pouco mais alta. Por ser impopular, os parlamentares podem exigir mais para implementar a agenda dele. Mas não digo que vão fazer um bloqueio à sua agenda, mas sim reivindicar cada vez mais. Um governo impopular e sem apoio das urnas é o momento que os parlamentares tem de exigir um pouco mais, então são emendas maiores. Aumenta o custo de barganha do presidente. Mas como eu disse, os parlamentares colocaram o Temer lá para implementar sua agenda. Então não vejo como impopularidade de Temer possa piorar seu governo, apenas tornar um pouco mais custosa a negociação entre Temer e os parlamentares."

Guilherme Carvalhido - professor de Ciência Política da Universidade Veiga de Almeida

"O Congresso não tem se mostrado incomodado com essa impopularidade. O Maia admitiu que tem o controle da casa e que o Temer vai ganhar nessas acusações de corrupção colocadas pelo MP. Essa declaração mostra que é muito provável que ele vença. No Congresso, muitos parlamentares dizem que são ligados à opinião pública, mas a verdade é que, recebendo o dinheiro das emendas do governo em troca de apoio, eles conseguem transferir isso para suas bases eleitorais, chamando a atenção do eleitorado positivamente.

A pesquisa do Ibope é circunstancial e importante, mas não acredito que na hora da eleição isso vai ser decisivo. Esse dinheiro vai ser transmitido para projetos nas bases eleitorais desses deputados. Esses projetos vão ter repercussão junto às bases. A conquista de apoio através da utilização de recursos para emendas parlamentares é moralmente condenável, mas efetivo na prática. Eles efetivamente vão se beneficiar do ponto de vista político e eleitoral. É um período positivo para ter projetos aprovados nas Casas. Essas emendas vão se transformar, em certa medida, em voto. Isso está favorecendo a imagem desses congressistas em suas bases, em vez de piorar a condição do Congresso.

Falando da imagem do Temer, ele ficará mais marcado ainda por ter comprado os deputados. O governo gastou demais e as contas não vão fechar. Houve um aumento da alíquota dos impostos da gasolina. Isso vai trazer ainda mais desequilíbrio na economia, o que chama a atenção da população. A imagem dele deve piorar ainda mais. A população vê tudo isso como uma grande mentira. Ele vai tentar salvar sua pele até outubro do ano que vem e isso tem um preço. 

Em termos econômicos é uma questão de confiança. O investidor precisa ter segurança institucional, fato que não está acontecendo. Porém, o empresariado é beneficiado nessas medidas. O ministro da Fazenda Henrique Meirelles é um cara que segura a onda do mercado. Para isso ele é muito competente. Os investidores já não tem a mesma visão da sociedade. O investidor está interessado em uma estabilidade e segurança econômica, mas com essa impopularidade o investidor está no meio do caminho. Se vermos o quadro de confiança da classe empresarial ele subiu, principalmente com o trabalho do Meirelles. Houve um recuo com o caso da JBS, mas vem subindo. Enquanto isso, temos 14 milhões de desempregados, o que no Brasil é uma tragédia."

Paulo Baía - Cientista político e sociólogo. Professor da UFRJ

"Na questão política o país vive um divórcio entre os poderes Executivo e Legislativo. A sociedade repudia ambos. Apesar disso e de toda a impopularidade do governo Temer ele não caminha para um crise de ingovernabilidade por que ele tem maioria nas Casas e eles não estão preocupados em agradar a sociedade. Os parlamentares não estão preocupados em conquistar legitimidade, e sim se defender da sociedade. O movimento da classe política é de defesa. A classe política não quer ir para a sociedade e sim se proteger do povo.

O resultado da pesquisa tem como motivo fundamentalmente a corrupção. As reformas são meio vagas para o público geral, mais por desconhecimento da sociedade do que pelos seus efeitos. Apesar disso, curiosamente a sociedade ficando altamente politizada e cada vez mais atenta a essas questões."

Pedro Rossi - Professor do departamento de Economia da Unicamp

"A impopularidade dele é decorrente das reformas. Reformas não só impopulares, mas antidemocráticas. A população não quer as reformas. Um governo que deveria ser de transição vem causando mudanças não legitimadas pelas urnas. Um governo legítimo não teria condições de fazer essas mudanças. O governo vem fazendo um trabalho sujo, ao encaminhar essas reformas. São medidas de retrocesso. Vão trazer avanço apenas para uma determinada classe, o que acaba priorizando determinados interesses em detrimento de outros.

Essas reformas estruturais geram apenas uma apropriação maior dos frutos do crescimento quando ele vier. No curto prazo não geram crescimento, e a longo prazo geram um benefício prioritariamente para o mercado. Temos um governo ilegítimo e absolutamente envolvido com escândalos de corrupção que propõe essas mudanças e um Congresso que aprova essas medidas. O que vemos hoje é uma situação anormal em que a democracia não vale nada. Não há o mínimo de debate democrático."

Wadih Damous - Deputado federal pelo PT do Rio de Janeiro

"É difícil mensurar se a impopularidade de Temer vai impactar o Congresso. Se os deputados tiverem percepção de que o apoio a ele será prejudicial para eles, eles abandonam o governo. Essa turma não tem exatamente medo do povo, e sim de não se reeleger.O jogo ali não é de lealdade, o jogo é de interesses. Como diria Ulysses Guimarães, 'O dia do benefício é a véspera da ingratidão'.

Vemos que o povo o considera impopular. O que falta é uma mobilização da sociedade. Esse é o pior governo da história do Brasil. Acho que uma mobilização da sociedade para efetivar essa insatisfação não tem como se prever, mas acredito que possa ocorrer a qualquer momento."


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