28/01/2022 às 23h27min - Atualizada em 28/01/2022 às 23h27min

XOROQUÊ E A GLÓRIA DE EXÚ

Não quero ser melhor que os outros, mas quero ser o melhor para os outros

Miguel Conceição
Miguel Conceição
Acervo pessoal do Pai Xoroquê

Por Miguel Conceição


Ele é um homem de estatura mediana, uma tez latina na qual o sol faz questão de dar sua generosa contribuição ao tom de sua pele, anda sempre com movimentos e atitudes precisas, próprias de um líder. Difícil acompanhá-lo. Atende a um, fala com outro, resolve o problema da compra dos materiais que faltam para um evento, enquanto um outro filho seu tenta passar o telefone: “É a cineasta fulana-de-tal diretamente de Cannes (França) querendo falar com o senhor”, falou a filha toda empolgada. Curioso, folheio alguns álbuns e registros de famosos como Djavan elogiando o Afoxé Povo de Exú, a atriz e cantora paraense Gaby Amarantos, o cineasta René Guerra e até o antropólogo Carlos Martins. Apesar da relação notória com todas essas celebridades, ele faz questão de frisar que não é um homem dos palcos, mas um simples sacerdote e começa proferir algumas frases de pura sabedoria:

 

“Eu canto candomblé. O meu canto é uma reza. A palavra samba quer dizer reza na língua Bantu. Era uma forma de o povo reivindicar alguma coisa. Quem não reza, Deus não escuta. Criaram o samba, a reza de rua. Eu sou candomblé, respiro candomblé, como candomblé e se me tirar o candomblé tudo acabou para mim. Eu vivo o sacerdócio que Olorum determinou para mim. Não quero ser melhor que os outros, mas quero ser o melhor para os outros. O candomblé é incrível porque somos adoradores de Deus através da natureza.” Estas frases vieram a mim como uma lição valiosa e carregarei para sempre comigo esse aprendizado.

 

Essa é uma breve descrição que fiz do primeiro contato com esse pequeno grande líder de uma comunidade de Religião de Matriz Africana situada no bairro do Benedito Bentes, na capital Maceió das Alagoas. Acanhado que sou, mesmo já acostumado a conhecer algumas grandes figuras, percebo que esta não seria uma entrevista fácil, dado o pouco tempo disposto por esse líder tão atarefado com sua gente e internacionalmente tão bem relacionado. Daí me veio a ideia de construir essa matéria aos moldes do fazer em imersão etnográfica: resolvi não realizar uma entrevista cartesiana, tradicional, na qual entrevistador pergunta-entrevistado reponde, mas entendi que o melhor seria passar um dia nessa comunidade, para entender um pouco do cotidiano desse líder e dessa gente linda que vem chamando a atenção positivamente Brasil e mundo afora.

 

Voltando ao processo etnográfico descritivo, a cena agora é manhãzinha, quase madrugada, primeiros raios de sol. Nem dormi porque não queria perder os primeiros movimentos dele, o Líder Xoroquê. É agora um momento íntimo, com sua ancestralidade, segredos do infinito, conversas sussurradas entre ele e sua entidade primeira do dia, Exú. Não ouso chegar perto, mas como uma testemunha do sagrado, observo de longe como um leigo aquilo que penso ser umas preces. Seus pés tocam o chão, numa conexão misteriosa. Abrem-se os olhos e a atmosfera muda. Um sorriso acolhedor vem na minha direção e alguns de seus filhos o acompanham. Nesse momento ouso manifestar a curiosidade jornalística, ao que ele me responde ainda em tom sacramental: “A minha primeira palavra dedico a Exú, mensageiro guardião. Depois vou aos orixás porque tive a permissão do guardião.”

 

Agora, despido daquele ar metafísico, é o homem que caminha para os afazeres comuns. Ele sai à porta da rua e dá muitos bons dias, vários. “Bom dia pai!” Responde um. Aparece um evangélico ali da mesma comunidade e lhe cumprimenta. Noutro momento aparecem o pastor e sua esposa e começam um breve papo, para minha surpresa e eu, com uma postura de etnógrafo, não interfiro, só observo. Depois a curiosidade não me deixa calado: eles falam normalmente com o senhor?! Ah sim! São todos meus amigos e todos aqui me amam e eu os amo também! “Aqui todos se ajudam. Para se ter uma ideia, 70% dos beneficiados do Mesa Brasil são de evangélicos, não há distinção.”Talvez essa cena de cordialidade tenha sido o momento mais emblemático e importante que vivi nos últimos tempos: um pastor, sua esposa e um pai-de-santo juntos, conversando na cordialidade da paz que todos precisamos. Vi ali a essência do Deus que cada um deles cultuam.

 

Essa foi uma das melhores experiências que vivi na qualidade de jornalista quando pude presenciar uma cena rara em nossos dias atuais. O Pai Manuel Xoroquê realmente é um líder necessário para o nosso Estado e que ainda vai dar muito mais o que falar de positivo para Alagoas.

Mundaréu Soul Social
Miguel Conceição 

 

 


Para quem quiser conhecer mais deste grande líder, abaixo transcrevo na íntegra uma entrevista que ele deu para o jornalista Raudrin Lima.
Entrevista de Pai Manoel Xoroquê

Cedida ao jornalista Raudrin Lima  do jornal "O Fato"

   Eu sou pai Manoel, empresário e presidente do Instituto da cultura Afro no Brasil legionirê, diretor do grupo de dança afro "Afoxé Povo de Exú" e fundador do Ilê axé legionire que foi fundado no dia 23 de abril 1984,sendo o mesmo líder comunitário com vários projetos em ação,sendo eles; Afoxé Povo de Exú,que visa tirar os jovens da ociosidade através da música e da dança afro,outro projeto bastante conhecido "Faça uma criança sorrir na periferia",que visa doações de roupas , presentes e alimentos para as crianças e mães carentes das comunidades dos conjuntos Benedito Bentes l e LL e adjacências, este projeto tem apoio de amigos e empresários e vários famosos que tem nos apoiado.


Pergunta ( O Fato) Como começou sua trajetória no candomblé?

Resposta:Com o sorriso largo pai Manoel responde, Eu era muito jovem na época,vim de família humilde de trabalhadores honestos e literalmente católicos.Sempre me chamou atenção quando eu passava em algumas lojas de artigos religiosos eu fazia muitas perguntas aos proprietários o que significava aquelas imagens e os nomes daqueles santos  afro que me chamava atenção, Queria saber o nome de todos e sempre curioso.Um dia fui convidado para um aniversário ainda adolescente e sem pedir permissão aos meus pais e fui; chegando lá era aniversário de uma yalorixá que hoje não se encontra mais nesse plano, me sentir em casa vendo pessoas de branco falando um dialeto desconhecido por mim, naquele momento tive a certeza de que aquela era a religião que eu gostaria iniciado,frequentei essa casa por alguns anos escondido de minha família,com a passagem dessa yalorixá me iniciei em uma casa de candomblé nação Angola onde no dia 23,de abril de 1984 recebir os meus direitos de sacerdote, e ainda muito novo de idade comecei a receber pessoas para se consultar comigo.Neste mesmo ano foi fundado o Ilê Axé Legionirê que algumas vezes  mudou-se de endereço  sem perder sua essência , e a 27 anos estou no Loteamento Bela Vista Quadra,28 número 26 situado no Benedito Bentes ll 



Pergunta ( O Fato) Como é seu dia a dia ?

Resposta: Acordo cedo, e a minha primeira palavra é com a minha ancestralidade ,logo após vem as funções do terreiro abro as portas do instituto para  atender a comunidade  e adoro tá recebendo e dando bom dia as pessoas que por ali passa adultos e crianças,e com isso me sinto muito feliz. É muito raro eu ir a bares , shows e cinemas,pois sempre dediquei toda a minha vida a essa religião maravilhosa que é o candomblé.


Pergunta (O Fato) Como você se sente hoje conhecido por tantas pessoas nacionais e internacionais e inclusive famosos?


Resposta: Na realidade eu sou uma pessoa muito simples ,meu vocabulário não é tão extenso sempre quis trabalhar dentro da espiritualidade para atender a todas as pessoas que me procuravam,atendo todos por igual do mais humilde operário aos mais alto milionário sem diferença pois os orixás nós ensina ser cada dia melhor para os outros e não ser melhor que os outros,eu acho que isso tudo é fruto de um trabalho sério e dedicado. Eu me sinto a cada dia que passa mais feliz,por tudo que acontece ao meu redor.


Pergunta (O Fato) Você se acha famoso?


Resposta: Mais uma vez com um largo sorriso pai Manoel responde; algumas pessoas falam que sou famoso eu acredito que sim dentro da minha comunidade sou bem quisto por adultos e crianças de minha comunidade ela adora tirar fotos comigo e eu adoro também , porém acredito que não sou famoso fora da minha comunidade, conheço muitas pessoas acho lindos e maravilhosos famosos ,eu nunca pensei em ser fomos mais se um dia eu me tornar espero que eu consiga lidar com a fama.


Pergunta (O Fato) Você acha que o Afoxé Povo de Exú te trás fama?

Resposta:Eu acho que o Afoxé Povo de Exú me trás conhecimentos e eu luto para que um dia esse grupo seja sim famoso e eu consiga ter condições com as apresentações poder remunerar todos os componentes.


Pergunta (O Fato) Como surgiu o Afoxé Povo de Exú?

Resposta:O Afoxé Povo de Exú nasceu de uma ideia que eu tinha a muitos anos de criar algo diferente dentro da religião ,que as crianças , jovens e adultos podesse se divertir sem sair do candomblé,uma das sacerdotisa mais antiga desse axé chamada Mãe Ângela de oxum se reuniu em sua casa alguns anos atrás para me fazer uma homenagem no dia do meu aniversário na época não tinha instrumentos ,entre baldes , panelas e latas começaram um batuque na porta de sua casa sem que eu soubesse é claro,isso chamou atenção de pessoas que alí viviam, vizinhos que apoiavam e achavam bonito e outros vizinhos de outras religiões ameaçavam chamar a polícia,mesmo assim os ensaios continuaram e eles resistiram até chegar o dia da apresentação no meu aniversário eu estava recebendo amigos ,quando der repente ouvir uma batucada, no dia eles arrumaram instrumentos emprestados e entraram no barracão todos cantando e dançando e foi incrível confesso que meu coração quase saiu pela boca.Logo me juntei a eles também dançando e foi assim que surgiu o Afoxé Povo de Exú que hoje está sendo conhecido através das redes sociais e em alguns lugares no Brasil.


Pergunta (O Fato) O senhor está sendo visto como um grande formador de opiniões nas redes sociais através dos vídeos que o senhor grava.Na sua opinião como você vê isso?

Resposta: Na realidade eu sou extremamente tímido, não gravo entrevistas ,mais me vi obrigado a gravar alguns vídeos no grupo de terreiro, pedindo doações de roupas , alimentos para pessoas carentes de alguma forma estes vídeos começaram a migrar para outros grupos no começo fiquei muito chateado e ao mesmo tempo envergonhado por ser tão tímido mesmo assim não deixei  de gravar e sempre pedindo para que as pessoas não divulgassem os vídeos ,mais ,mais uma vez  não atenderam ao meu pedido, algumas pessoas começaram a ligar para mim me  parabenizando pela iniciativa do projeto e me incentivando a gravar outros e vídeos, daí comecei a gravar outros e outros,mais ainda me sinto não muito a vontade.Hoje tem algumas pessoas que me ajudam e que me incentivam,mais na realidade é que eu gosto mesmo é de gravar quando estou sozinho e estou começando achar isso muito bom.


Pergunta (O Fato) É verdade que algumas pessoas pedem pra você fazer propaganda de Escolinhas , mercadinhos ou algo que queiram vender?

Resposta:kkkkkkkkkkk, sério que vcs estão sabendo disso?Gravei sim alguns vídeos pequenos ajudando algumas pessoas a negociar coisas pequenas, porém pedir muito para não divulgar.


Pergunta (O Fato) Pai Manoel que mensagem você deixaria para seu público?

Resposta: A mensagem que eu deixo hoje é principalmente para os jovens que será o futuro do amanhã,que eles ame a Olorum acima de todas as coisas,e que vocês respeitem os mais velhos,pois os cabelos brancos é sinônimo de sabedoria e de experiência de vida , estudem pois quem senta hoje para aprender futuramente vai levantar para ensinar.Que Olorum abençoe a todos

 

 
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