21/01/2022 às 16h35min - Atualizada em 21/01/2022 às 16h35min

A VOZ DO MILÊNIO, A MULHER DO FIM DO MUNDO

Miguel Conceição
Artista visual Átila Brito
 

Por Miguel Conceição

Quero começar esse texto ousando pedir aos meus caros poucos, porém muito inteligentes, leitores um gesto físico: fechar os olhos, viajar no tempo e se imaginar lá. Espera! Visualize a cena: em meados do século passado uma jovem negra, pobre, morando em uma humilde casa, calor infernal, passando fome e já mãe! Vendo o sofrimento e ouvindo o choro de seus filhos. O motivo? Fome! Muita fome! Agora feche os olhos e pare por um momento...

 

O que você sentiu? O que você faria?

 

Elza Sores se viu diante dessa situação enquanto passava no rádio a notícia de que o prêmio para quem cantasse bem estava acumulado. De pronto essa franzina menina pegou uma roupa de sua mãe, ajustou-a ao corpo com grampos, pegou uma sandália “mamãe tou na merda”, tipo de calçado assim alcunhado por ela, e seguiu para o evento que mudaria sua vida.

 

O concurso se passava num programa famoso na época, 1953, comandado por Ari Barroso. Ao avistarem aquela figura franzina, mal vestida e destoante em todos os sentidos daquele glamouroso mundo, todos riram dela.

O que você veio fazer aqui?” Perguntou o apresentador. 

“Eu vim cantar!”

“Mas de que planeta você veio?!”

“Eu vim do mesmo planeta que o seu, seu Ary.”

“E qual é o seu planeta?”

“Eu vim do planeta fome!”

 

Silêncio geral na plateia. Era o marco da chegada de temas sociais para um público elitizado pela figura guerreira de uma franzina preta. Ela começou a cantar a canção “Lama” e o gongo, sinal de que se tocasse a pessoa não teria alcançado o prêmio, não tocou. Ao que Ari Barroso proclamou: “Senhoras e senhores, nasce uma estrela!” E a estrela nasceu.

 

De lá para cá, entre tantas glórias e infortúnios, idas e vindas, perseguição pela Ditadura Militar, enfrentando a violência em relacionamentos, o preconceito, o racismo, o ostracismo midiático, essa grande mulher acumulou um capital político e de resistência em sua voz que poucos alcançarão. Nunca se calou, jamais se acovardou. Do alcance de sua voz fez um instrumento para atingir pontos sensíveis na vida social brasileira e  desbravar fronteiras ainda pouco abertas a pessoas negras. Elza Soares chegou lá e não ficou sozinha, levou consigo a possibilidade de artistas negros se colocarem na qualidade de poderem ser ouvidos. Uma voz que deu vozes.

 

A menina que veio do planeta fome lutou contra a miséria com sua voz estrondosa e única. Seu legado imenso sedimentou o piso sobre o qual tem assento toda uma geração de pessoas que trazem na sua arte a marca de luta por igualdade e justiça social. Uma franzina menina, que se tornou uma grande mulher e saciou a fome e sede de ser e de existir de sua gente preta.

 

Sua partida é realmente uma grande perda num momento tão difícil que o Brasil enfrenta porque com sua voz ela era uma força política importante na busca por dias melhores, na luta contra o fascismo crescente, na luta contra todas as ideologias de opressão que castiga nossos dias atuais. Não cala-se a voz fisicamente apenas, mas com ela cala-se a possibilidade de uma postura política que ela sempre trouxe consigo.

 

Mas Elza Soares, mulher que foi proclamada a Voz do Milênio, tornou-se suprema e continuará viva com seu legado que se perpetuará para sempre. E em tempos tão conturbados politicamente, a mulher do fim do mundo se eleva às estrelas deixando uma lição de força e coragem para lutarmos pelo começo de um novo mundo.

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