16/08/2021 às 22h13min - Atualizada em 16/08/2021 às 22h13min

O CASO JANE CIGANA E OS RESQUÍCIOS DO “QUEBRA DE XANGÔ DE 1912” QUE PERDURA NAS ALAGOAS DOS CORONÉIS

-Uma breve reflexão -

Miguel Conceição
foto: Miguel Conceição
      Quero começar essa breve reflexão que faço sobre alguns infelizes aspectos do nosso atual contexto social, tendo como ponto de provocação e meditação a persona de Jane Cigana, que de tão única, fez de si mesma signo e significado. Sem discorrer sobre sua biografia ou me aprofundar sobre sua personalidade, quero me ater a alguns traços marcantes dessa mulher que provoca em quem a ver, se não uma curiosidade, um encanto magnético imediato. Quem é ela? Essa figura única que passeia pelas ruas de Maceió, vestida de cigana, joias em profusão, maquiagem carregada, brilhos a incandescer os olhos e um sorrir cativante que aprisiona a alma, fazendo descontinuar qualquer ironia maldosa a um segundo toque de sua presença e sorriso. Pois essa aparente figura estranha, ao mesmo tempo que sensível, quase uma criança em sua personalidade, é uma mulher forte, com um discurso afiado e coerente, praticante de um misto eclético de algumas correntes das religiões de matrizes africanas, militante de causas sociais em diversos movimentos, atuante politicamente, mulher de traços latinos, mestiça, que assume sua negritude e africanidade. E, para além de tudo isso, uma espécie de maga, figura mística, daquelas que são capazes de nos fazer parar para ouvir seus conselhos e premonições. Uma fonte de pureza a jorrar sua luz num tempo sombrio coberto de incertezas.
         Pois é! Falando assim, parece uma entidade mística, diáfana às maldades do mundo, mas não! Para além do místico e aparência de apoteose social que se nos apresenta sob toda essa imagem magnetizante aqui descrita, Jane Cigana é também mulher, amiga, mãe e irmã. Ou deveria ser! Ou deveria, pelo menos ser: respeitada em qualquer uma dessas posições que ela ocupa numa família! Mas não tem sido assim. Jane Cigana, filha e herdeira do Famoso Dr. Meroveu, médico que fundou em Alagoas o primeiro laboratório de análises clínicas, tendo ele falecido recentemente, ela herdou uma soma que, dizem, ser bastante vultosa. Logo após esse infeliz fato de perda do pai e herdar algo que poderia ser-lhe um alívio, num turbulento e triste momento, Jane Cigana passou a ser vítima da ação inescrupulosa de alguns familiares que, tão logo caixão de seu pai tocou o chão, a internaram em um hospital psiquiátrico da Cidade de Maceió, por nome de Hospital Ulisses Pernambucano. E para agravar o fato da internação indevida, há relatos narrados em conversas de WhatsApp, em que a motivação para seu encarceramento psiquiátrico se dá por questões religiosas, onde numa das conversas que constam num documento endereçado a OAB/AL, existem diálogos que dão conta da promessa de destruir seus aparatos religiosos, configurando-se aí um flagrante ato de intolerância religiosa. Ato este que encontra ecos num episódio infame da história alagoana de perseguição às religiões de matrizes africanas, conhecido como Quebra de Xangô. Uma mulher, negra, latina, mestiça, que ousa ser livre, ousa vestir-se como cigana, ousa ter voz numa Maceió que parece não querer largar a triste herança do Quebra de Xangô de 1912. Evento este no qual várias casas de Candomblé foram destruídas, onde alguns dos praticantes das religiões de matrizes africanas foram mortos (como foi o caso da Mãe de Santo Tia Marcelino) e outros precisando até fugir. Esse fato teve como um dos personagens principais e algoz o então político Fernandes Lima, um dos principais membros da organização Liga dos Republicanos Combatentes, liga esta que levou a cabo essa perseguição contra os terreiros da capital e também do interior de Alagoas. Inclusive esse mesmo político, para não dizer criminoso ainda dá nome ao principal eixo viário da capital alagoana, a Avenida Fernandes Lima, deixando claro que Alagoas não tem o intuito de rever sua história, nem de repensar posturas desumanas do passado.
          Nesse contexto de pensamento em prol do apagamento e destruição de toda uma cultura afro-mestiça e negra que aflorou em solo brasileiro e alagoano, temos o médico eugenista Raimundo Nina Rodrigues, onde é possível depreender uma disposição de pensamento voltado para a solidificação de um estamento social de exclusão de um grupo ao qual ele, e mais alguns de seus asseclas intelectuais da época, consideravam indignificantes - leia-se negros e mestiços - da sociedade brasileira: leia-se sociedade branca brasileira. Após o fim da escravidão, alguns desses ditos intelectuais brasileiros, detentores do saber, começaram a traçar estratégias de construção de uma identidade nacional, “uma sociedade brasileira”, onde Nina Rodrigues, dentre outros, defendiam que ‘o mestiço seria nocivo ao Brasil por carregar o pior de dois mundos’. A essa nova sociedade que se desenhava, assentada na pseudociência da Eugenia, Nina Rodrigues e seus iguais, vão ajudar a fundar as bases de uma estrutura racista, calcada na pseudociência da Eugenia, que perdura até os dias atuais na forma de genocídio da negritude, encarceramento em massa, encarceramento manicomial, fome, falta de educação de qualidade para essa população, tratamento inferiorizado às mulheres negras grávidas no SUS, dentre tantas outras ações de aniquilamento do povo preto. E com efeitos nefastos para negros e mestiços no Brasil, como mostram os números de vulnerabilidade social do IPEA. Sob esse contexto, temos o intelectual camaronês, filósofo, Achilles Mbembé que cunha o termo NECROPOLÍTICA, conceito sobre o qual ele aponta para o fato de que há toda uma estrutura governamental, coesa em sua função, como forma política e que estende aos campos da economia, das políticas de segurança pública, das políticas de saúde, das ações sociais e até culturais, onde tudo é voltado para promover a morte de uma dada população e seu subjugamento (negros, pobres e todos aqueles que se encontram fora do padrão), enquanto essa mesma política protege um outro grupo privilegiado (brancos e ricos). Em suma, o termo Necropolítica descreve uma política de ação estatal sob a qual os governos decidem quem vive e quem morre, ou quem eles deixam para morrer. O caso da Jane Cigana é apenas mais um dentre tantos outros, mas bastante emblemático na conservadora e retrógrada sociedade alagoana. Emblemático porquanto as características de seu encarceramento psiquiátrico encontram ecos no fatídico, perigoso e infame evento do Quebra de Xangô de 1912. E seu caso é preocupante porque pode acontecer com qualquer membro da sociedade, além de apontar para uma possível prática ilícita de recorrência a manicômios para fins escusos.
          O que aconteceu com Jane Cigana consegue reunir em si todo um conjunto de situações que já foram amplamente denunciados e intelectualizados no pensamento de uma sociedade que se pensa moderna no âmbito do respeito à dignidade humana, respeito às mulheres e minorias sociais oprimidas. Quem a encarcerou em um manicômio ignorou aspectos de reformulações de tratamentos psiquiátricos modernos, os quais optam pelo afastamento da possibilidade de internamentos compulsórios, o que passa longe de ser um caso aplicável a Jane Cigana. Nesse sentido, temos a alagoana Nise da Silveira, conhecida e reconhecida mundialmente, mulher que reuniu em si toda uma revolução no campo da psiquiatria com o Museu da Imagem do Inconsciente.
     Jane Cigana é uma mulher, militante de movimentos sociais, de orientação religiosa de matriz africana, silenciada com encarceramento manicomial, sob o argumento de que isso se deve ao fato da sua prática religiosa. Estamos comemorando o 73º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos e em seu artigo 18º reza que “toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião(...)”, ou seja, o direito do ser humano de professar livremente sua religião, direito esse negado a Jane Cigana. E também o artigo 5º de nossa Constituição, o qual garante o direito de inviolabilidade da vida e da liberdade.
          Tendo assim refletido, quero deixar registrado que a Jane Cigana, como Jane Mãe e Jane irmã pode não ter sido respeitada em sua singularidade e humanidade por aqueles que deveriam ser os primeiros a zelar por sua segurança e sua liberdade de ser persona, individual no mundo. Mas a Jane Cigana, Jane Maga, Jane Mística, Jane Mulher e, sobretudo, Jane Amiga é e será respeitada, pois estamos na luta por ela. Somos todos Jane Cigana! Respeita Jane Cigana! Liberdade para Jane Cigana!
 
Miguel Conceição
Professor, bailarino, ator
 
 
Bibliografia Consultada
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